
O Exercício Físico como promotor da Longevidade, com qualidade! (O papel das Miocinas)
Envelhecer é um processo biológico progressivo, natural e irreversível de qualquer organismo vivo, e o ser humano não é exceção. Acaba por ser multifatorial na complexidade das diversas alterações a que o nosso organismo é sujeito, ao longo do seu ciclo de vida, desde anatómicas a fisiológicas e ainda psicossomáticas. A destacar a deterioração, não só, na função de vários sistemas orgânicos, como também de vários tipos de células imunitárias (1). Além de fatores genéticos, a combinação de fatores ambientais e comportamentais são também determinantes para a longevidade do ser humano (2).
Ainda que, ao longo do tempo, se tenha registado uma melhoria dos cuidados de saúde, algo que tem permitido um aumento sucessivo da esperança média de vida da população de forma global (3), também temos assistido a um aumento da população idosa com diversas patologias e comorbilidades associadas aos estilos de vida adotados. Isto é algo que poderá comprometer a longevidade, ou pelo menos a qualidade de vida numa idade mais avançada, mesmo com conhecimento dos vários fatores de risco, tais como: sedentarismo; consumo de álcool; de tabaco; alimentos processados; ingestão elevada de sal; etc. que podem levar a doenças cardiovasculares, imunológicas e metabólicas (4 e 5).
É urgente mudar de paradigma, até porque é uma realidade que tem um papel preponderante no cenário social e macroeconómico (5). E considerando a elevada taxa de prevenção que a maioria dessas patologias podem ter, é fundamental apostar em:
– Diagnósticos médicos antecipados, ou seja, quanto mais cedo se detetar alguma anomalia, muito maior será a probabilidade no sucesso da sua prevenção e tratamento;
– Adoção de estilos de vida saudáveis, com recurso à prática de exercício físico de forma regular e continuada; a uma alimentação equilibrada; a uma boa higienização do sono, e ainda à componente social, seja na relação com familiares ou com amigos, ou até mesmo com a comunidade. No fundo são estes os pilares fundamentais para o segredo da longevidade!
Mas vamo-nos focar no papel do exercício físico, até porque muitas destas patologias desenvolvem-se, em particular, devido à inatividade física (6)! Importa referir que só mais recentemente é que o Músculo Esquelético foi reconhecido como um órgão endócrino, por sinal, o maior do corpo humano! E o que é que isto quer dizer? Através das células das suas fibras (miócitos) o músculo esquelético, em resposta ao estímulo da contração muscular, é capaz de produzir e secretar citocinas e peptídeos, designados por Miocinas. No fundo são hormonas e pequenas proteínas sinalizadoras/ mensageiras, com efeitos essencialmente anti-inflamatórios e anabólicos, tendo a capacidade de comunicar de 3 formas essenciais (7):
– Autocrina, ou seja, os mensageiros químicos secretados por cada célula, vão-se ligar aos recetores da própria célula, para induzir funções específicas (8);
– Depois temos a comunicação paracrina, na qual a célula comunica com outras células dentro do mesmo tecido (no caso o muscular), para desempenhar, ou até mesmo inibir, a sua função (8). Portanto, acabam por ser 2 tipos de comunicação fundamentais para os mecanismos fisiológicos do próprio músculo.
– E temos ainda a forma Endócrina, na qual as células emitem a sinalização de determinadas substâncias que entram na corrente sanguínea, para serem transportadas até às células de outros órgãos como: pâncreas, fígado, tecido adiposo, cérebro, etc. ativando e/ou inibindo a sua função (7 e 8). Esta interação é fundamental porque induz alterações metabólicas contra uma série de patologias, tais como: a resistência à insulina; as doenças autoimunes; as cardiovasculares, diabetes tipo II, neurológicas; etc.
Detalhando um pouco mais para percebermos o modo como as miocinas atuam em diversos órgãos, temos:
– Miocinas que melhoram a função do pâncreas, como a interleucina 6 (IL-6), capaz de manter as células Beta operacionais, o que é fundamental para a produção de insulina (9);
– Miocinas que Melhoram a função do fígado como a irisina devido às suas propriedades anti-oxidantes (10).
– A irisina que é também importante na proteção contra o cancro, já que funciona como um supressor de tumores, prevenindo, inclusive, a sua metástese (alastrar das células cancerígenas a outros órgãos via corrente sanguínea e/ou linfática) (11, 12).
– A osteonectina (conhecida como SPARC) que é essencial na prevenção de alguns dos tumores, como os do colon, da mama e da próstata, com funções similares à irisina (11, 12);
– Outras miocinas são fundamentais para o cérebro, como a catepsina B e a irisina, responsáveis pela expressão de fatores neurotróficos da região do hipocampo, como a BDNF (brain derived neurotrophic factor), algo que é vital não só para a aprendizagem e memória (13, 14), mas também para a neurogénese e prevenção de doenças neurodegenerativas, como a demência e o Alzheimer, por exemplo.
– A irisina e a IL-6 que são também fundamentais no perfil do tecido adiposo, já que ajudam na termogénese e na lipólise, decompondo os lípidos em ácidos gordos e glicerol (15, 16).
– A IGF-1 (insulin-like growth factor) e a IL-6 que são também essenciais para a formação e mineralização óssea, assim como para o desenvolvimento da massa muscular, com efeitos autocrinos e paracrinos na prevenção da sarcopenia (12, 15 e 17).
Como vimos, há determinadas miocinas que têm múltiplos efeitos positivos em diversos órgãos, mas há um aspeto que é fundamental de salientar e que é o contexto. Por exemplo, durante anos a IL-6 foi referida como uma citocina pró-inflamatória, agravando o estado crónico de patologia inflamatória (12, 18). Por exemplo, em casos de septicemia, doença respiratória crónica, artrite, e/ou obesidade, verificava-se a elevação da sua concentração no plasma, sendo um coadjuvante neste processo inflamatório (18). Mas o contexto pode mudar isso! Ou seja, quando nos exercitamos e a sua secreção é feita pelo músculo esquelético, através da contração muscular, esta entra na corrente sanguínea, passando a ter um efeito anti-inflamatório (12, 13, 15)! Portanto, vejam a importância desta alteração em pessoas com patologias crónicas inflamatórias, em que um agente que costumava ser agressor, ou prejudicial à saúde, passa a exercer precisamente o efeito oposto! Ainda que seja necessário ter em conta algumas considerações com determinadas patologias.
Além disso, por exemplo, quando nos exercitamos há uma clara elevação dos níveis de decorina no plasma, que é uma miocina que promove o desenvolvimento da massa muscular. Ela serve também como antagonista da mioestatina, que é uma miocina que inibe o crescimento muscular sendo que se verifica, logo após o exercício, uma redução dos níveis desta última no plasma (12, 15). Esta correlação inversa tem sido verificada com biopsias musculares validando a importância do exercício físico nesta alteração.
Importa destacar também que, com uma simples sessão de treino, podemos induzir grandes alterações agudas na expressão de diversas miocinas, imediatamente após, e até 60 minutos! Regressando a valores basais nas 3 a 24 horas subsequentes (12, 19). Ora, para se obter maiores benefícios na sua expressão e magnitude, é essencial que haja regularidade na prática de exercício físico, optando pela forma com que cada um se identifique, pois tem-se mostrado que: quer atividades aeróbias como Cycling, corrida/jogging, e até mesmo caminhada (dependendo do nível de fitness da pessoa); quer exercícios de força, seja com peso corporal, seja com resistências, implicam diferentes impactos na expressão de diversas miocinas a nível crónico e duradouro! E elas são mais de 600, ainda que só se conheça com maior rigor algumas dezenas (12, 13, 19).
Para sintetizar toda esta informação, uma das fisiologistas que mais trabalhos e artigos tem desenvolvido na área (Bente Pederson), mostra-nos como a prática regular de exercício físico pode ajudar a prevenir e reduzir o risco de cerca de 35 patologias (20)!!! Já imaginaram um medicamento com este poder? Pois é, ele existe, e chama-se exercício físico. Mas não pensem que é fácil, mesmo com conhecimento dos seus inúmeros benefícios, primeiro porque o seu papel continua a ser altamente subvalorizado na sociedade, e depois porque envolve alterações comportamentais e criação de hábitos, algo que é efetivamente difícil de se conseguir. Se assim não fosse, os números do sedentarismo não continuariam tão elevados no mundo, e Portugal não é exceção, com cerca de 73% dos portugueses a não se exercitarem (21).
Em todo o caso, e sobretudo no contexto de ginásio, ou até mesmo de treino acompanhado, há um conjunto de situações que teimam em persistir, como as vendas agressivas, o treino altamente direcionado para a performance e para a estética…e se a pessoa tiver uma má experiência, é muito mais difícil trazê-la novamente para a prática, como comprovam os parcos números de retenção em contexto de ginásio, em particular das cadeias low cost (22). Continua-se a negligenciar muito a pessoa, ou cada pessoa em si, com as suas idiossincrasias, e cabe ao profissional do exercício jogar com isso, de modo a prescrever um treino que a “pessoa quer fazer, consegue executar, e irá manter ao longo do tempo!” (23) Só assim conseguiremos fidelizar a pessoa à prática continuada de exercício físico tendo em vista a promoção da saúde, bem-estar e, como iniciamos este tema, da longevidade com qualidade! (Diogo, S. Teixeira, PhD).
Bibliografia:
(1) Saxon S., Etten M. & Perkins E. Physical change and aging, Seventh Edition. A guide for helping professions. 2022.
(2) Ekmekcioglu C. Nutrition and longevity – From mechanisms to uncertainties. Crit Rev Food Sci Nutr. 2020;60(18):3063-3082. doi: 10.1080/10408398.2019.1676698. Epub 2019 Oct 21. PMID: 31631676.
(3) Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge; Serviço Nacional de Saúde. Esperança média de vida aumentou cinco anos entre 2000 e 2015, 19-05-2016. https://www.insa.min-saude.pt/esperanca-media-de-vida-aumentou-cinco-anosentre-2000-e-2015/
(4) Fadnes, L.T., Celis-Morales, C., Økland, JM. et al. Life expectancy can increase by up to 10 years following sustained shifts towards healthier diets in the United Kingdom. Nat Food 4, 961–965 (2023). https://doi.org/10.1038/s43016-023-00868- w
(5) Caturano A. Cardiovascular and Metabolic Disease: New Treatments and Future Directions 2.0. Biomedicines. 2024 Jun 18;12(6):1356. doi: 10.3390/biomedicines12061356. PMID: 38927563; PMCID: PMC11201551.
(6) WHO (World Health Organization). Nearly 1.8 billion adults at risk of disease from not doing enough physical activity, June 2024, News Release, Geneve. https://www.who.int/news/item/26-06-2024-nearly-1.8-billion-adults-at-risk-ofdisease-from-not-doing-enough-physical-activity
(7) Bente K. Pedersen and Mark A. Febbraio. Muscle as an Endocrine Organ: Focus on Muscle-Derived Interleukin-6. 01 October 2008, Physiological Reviews, Vol. 88, No 4, American Physiological Society. https://doi.org/10.1152/physrev.90100.2007
(8) Hoffmann C, Weigert C. Skeletal Muscle as an Endocrine Organ: The Role of Myokines in Exercise Adaptations. Cold Spring Harb Perspect Med. 2017 Nov 1;7(11):a029793. doi: 10.1101/cshperspect.a029793. PMID: 28389517; PMCID: PMC5666622.
(9) Linnemann AK, Blumer J, Marasco MR, Battiola TJ, Umhoefer HM, Han JY, Lamming DW, Davis DB. Interleukin 6 protects pancreatic β cells from apoptosis by stimulation of autophagy. FASEB J. 2017 Sep;31(9):4140-4152. doi: 10.1096/fj.201700061RR. Epub 2017 Jun 7. PMID: 28592636; PMCID: PMC5572685.
(10) Bucarey JL, Trujillo-González I, Paules EM, Espinosa A. Myokines and Their Potential Protective Role Against Oxidative Stress in Metabolic Dysfunction- Associated Steatotic Liver Disease (MASLD). Antioxidants (Basel). 2024 Nov 7;13(11):1363. doi: 10.3390/antiox13111363. PMID: 39594505.
(11) Park SY, Hwang BO, Song NY. The role of myokines in cancer: crosstalk between skeletal muscle and tumor. BMB Rep. 2023 Jul;56(7):365-373. doi: 10.5483/BMBRep.2023-0064. PMID: 37291054; PMCID: PMC10390289.
(12) Zunner BEM, Wachsmuth NB, Eckstein ML, Scherl L, Schierbauer JR, Haupt S, Stumpf C, Reusch L, Moser O. Myokines and Resistance Training: A Narrative Review. Int J Mol Sci. 2022 Mar 23;23(7):3501. doi: 10.3390/ijms23073501. PMID: 35408868; PMCID: PMC8998961.
(13) Chow LS, Gerszten RE, Taylor JM, Pedersen BK, van Praag H, Trappe S, Febbraio MA, Galis ZS, Gao Y, Haus JM, Lanza IR, Lavie CJ, Lee CH, Lucia A, Moro C, Pandey A, Robbins JM, Stanford KI, Thackray AE, Villeda S, Watt MJ, Xia A, Zierath JR, Goodpaster BH, Snyder MP. Exerkines in health, resilience and disease. Nat Rev Endocrinol. 2022 May;18(5):273-289. doi: 10.1038/s41574-022- 00641-2. Epub 2022 Mar 18. PMID: 35304603; PMCID: PMC9554896.
(14) Pena GS, Paez HG, Johnson TK, Halle JL, Carzoli JP, Visavadiya NP, Zourdos MC, Whitehurst MA, Khamoui AV. Hippocampal Growth Factor and Myokine Cathepsin B Expression following Aerobic and Resistance Training in 3xTg-AD Mice. Int J Chronic Dis. 2020 Jan 30;2020: 5919501. doi: 10.1155/2020/5919501. PMID: 32090058; PMCID: PMC7011393.
(15) Schnyder S, Handschin C. Skeletal muscle as an endocrine organ: PGC-1α, myokines and exercise. Bone. 2015 Nov;80:115-125. doi: 10.1016/j.bone.2015.02.008. PMID: 26453501; PMCID: PMC4657151.
(16) Jie-Ying Zhu, Liang Guo, Exercise-regulated lipolysis: Its role and mechanism in health and diseases, Journal of Advanced Research, 2024, ISSN 2090-1232, https://doi.org/10.1016/j.jare.2024.11.031. (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2090123224005502)
(17) MingHong Shao, QiYang Wang, QiuNan Lv, YuQiong Zhang, GuoXi Gao, Sheng Lu, Advances in the research on myokine-driven regulation of bone metabolism. Heliyon, Volume 10, Issue 1, 2024, e22547, ISSN 2405-8440. https://doi.org/10.1016/j.heliyon.2023.e22547.
(18) McElvaney, Oliver J et al. Interleukin-6: obstacles to targeting a complex cytokine in critical illness. The Lancet Respiratory Medicine, 2021/06/01. Volume 9, Issue 6, 643 – 654. https://doi.org/10.1016/S2213-2600(21)00103-X
(19) Bettariga F, Taaffe DR, Galvão DA, Lopez P, Bishop C, Markarian AM, Natalucci V, Kim JS, Newton RU. Exercise training mode effects on myokine expression in healthy adults: A systematic review with meta-analysis. J Sport Health Sci. 2024 Nov;13(6):764-779. doi: 10.1016/j.jshs.2024.04.005. Epub 2024 Apr 10. PMID: 38604409; PMCID: PMC11336361.
(20) Pedersen BK. The Physiology of Optimizing Health with a Focus on Exercise as Medicine. Annu Rev Physiol. 2019 Feb 10;81:607-627. doi: 10.1146/annurevphysiol-020518-114339. Epub 2018 Dec 10. PMID: 30526319.
(21) Diário de Notícias. DN. 73% dos portugueses não fazem exercício físico. Setembro, 2022, Sociedade, DN/Lusa. https://www.dn.pt/sociedade/73-dosportugueses-nao-fazem-exercicio-fisico-15179168.html/
(22) Pedragosa V., Cardadeiro E. e Santos A. Universidade Autónoma de Lisboa e Portugal Ativo. Barómetro do Fitness 2022, Relatório Anual. https://portugalactivo.pt/wpcontent/uploads/2023/12/06_Barometro_Anual_AGAP_2022.pdf
(23) Teixeira, D. O que lhe dá prazer? Considerações na prescrição de exercício e adesão continuada à prática. EXS, 8 de novembro, 2023. https://exs.com.pt/oque-lhe-da-prazer-consideracoes-na-prescricao-de-exercicio-e-adesaocontinuada-a-pratica/