Treino Propriocetivo por Nuno Pinho

Treino Propriocetivo por Nuno Pinho

Pontes lógico-científicas para um melhor entendimento e aplicação.

O propósito mais nobre que se pode aspirar numa atividade profissional que cuida do corpo-humano, é fazê-lo com base em elementos científicos e lógicos que lhe confiram um grau de precisão e segurança que exponenciem a indução de melhorias na motricidade dos clientes / alunos / pacientes. Num processo contínuo de aprendizagem e aplicação diária, várias questões coloco sobre uma diversidade de temas que são aprendidos e usados pelos profissionais. O treino propriocetivo assumiu um carácter messiânico, não apenas na reabilitação de lesões, mas também, como elemento particular na construção de contextos de estimulação, portanto, uma espécie de ramo específico de treino, uma nova tendência. O intuito do presente texto passa por clarificar e (re)construir um conjunto de elementos que considero de extrema relevância para uma aplicabilidade mais consciente.

Como nos diz Edgar Morin, “a supremacia de um conhecimento fragmentado segundo as disciplinas torna muitas vezes incapaz de operar o vínculo entre as partes e as totalidades e deve dar lugar a um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos nos seus contextos, nas suas complexidades, nos seus conjuntos”. (Os sete saberes para a educação do futuro, 2002).
A etimologia da palavra propriocepção remete-nos para «sensação», «recepção» «própria», portanto, para uma «sensação de sí». Como referem Proske e Gandevia, (2012. Physiology Rev 92:1651-1697), em atividades diárias dependemos de sinais vindos dos sensores (proprioceptores) corporais para que possamos responder às circunstâncias e movermo-nos no espaço.

Toda esta informação propriocetiva é criada nos tecidos biológicos por recetores sensoriais que enviam sinais para o sistema nervoso central onde é orquestrada a resposta motora mais adequada. Portanto, falar do sistema propriocetivo é iniciar uma viagem pela organização neural que modula a tensão muscular na relação do esqueleto com o espaço físico. Assim sendo, exceto em caso de morte, doença ou acidente que incapacitem alguma parte do corpo, o sistema propriocetivo está sempre presente num corpo vivo.
Na área do exercício e da tão aclamada motricidade o treino da propriocepção assumiu um carácter que afasta o conhecimento do corpo (anatomia e fisiologia neural, muscular e articular) do seu centro. Em completo antagonismo, assistiu-se a uma centralização de um conjunto de teorias e métodos cujo fundamento é transformar o “chavão” em chave. O treino em superfícies instáveis é, talvez, o método mais abordado e aplicado quando se pretende melhorar a propriocepção. Desta tendência, surgiram uma multiplicidade de equipamentos e métodos de treino que se especializaram no erradamente designado treino propriocetivo. Para clarificar esta posição, lanço algumas questões:

  1. Porque são alguns exercícios discriminados como propriocetivos e outros não?
  2. Porque o treino propriocetivo está associado ao desafio em superfícies instáveis?
  3. Se após uma lesão os tecidos estão debilitados, será prudente adicionar instabilidade externa com o intuito de estimular a propriocepção?
  4. As melhorias percecionadas não poderão dever-se à aquisição da habilidade técnica necessária a muitos desses exercícios?

Em um estudo publicado no Journal of Strength and Conditioning Research, comparou-se o efeito de 7 semanas de treino com exercícios realizados em superfícies instáveis e estáveis num grupo de indivíduos sem experiência de treino. Os autores referem que, ambas as formas de treino promoveram o mesmo tipo de adaptações. Por outro lado, citam outro investigador, que refere, que o melhor método para promover melhorias no equilíbrio, na propriocepção e na estabilidade do core para qualquer desporto é praticando a habilidade específica dessa mesma atividade (Behm, D, Kibele, A. Seven Weeks of Instability and Traditional Resistance Training Effects on Strength, Balance and Functional Performance, 2009).

Aproveitando o exposto, penso poder partilhar com o leitor que em meu entendimento, qualquer forma de exercício é propriocetivo e que uma multiplicidade de fatores se relacionam para que possamos afirmar que a melhoria de aspetos aparentes da motricidade se deve a algum método em particular. A aprendizagem motora é um campo de conhecimento muitas vezes desconhecido e que pode mascarar muitos aspetos tidos como de melhorias induzidas. O aparecimento de equipamentos e métodos que requerem uma grande habilidade motora pode confundir o profissional que não reflita de forma ativa acerca da sua prática – Estará o cliente a melhorar efetivamente a sua capacidade neuro-músculo-articular, ou estará a melhorar o skill técnico de uma nova habilidade que lhe pedem para executar em cima de uma superfície instável ou outro equipamento?
Em outra publicação no Journal of Strength and Conditioning Research, os autores revelaram que a activação electromiográfica do multifidus lombar em exercícios com peso livre era maior quando comparado com os realizados em bola suíça. Sugerem também, que o risco inerente às tarefas executadas em cima da bola suiça e a sua pouca aplicabilidade para o recrutamento muscular a tornam desnecessária (Martuscello, J. et al. Systematic Review of Core Muscle Activity During Physical Fitness Exercises, 2013).

Um profissional deverá pautar a sua prática por uma reflexão constante, colocando em causa o aparente e entrando com a profundidade devida nos assuntos que, não raras vezes, se assumem como verdades absolutas. Não afirmo que treinar em superfícies instáveis seja mau, no entanto, gostaria de despertar no leitor a noção de que o corpo humano, quando está a ser estimulado sob a forma de exercício físico está a interpretar as forças que lhe chegam e a encontrar a melhor resposta possível com os mecanismos biológicos que possui na circunstância. Se não se conhecer o seu potencial e as suas limitações poder-se-á, de forma perigosa, hipotecar o carácter aquisitivo e adaptativo que o exercício deveria transportar.
O treino da “propriocepção” que sugiro assenta em algumas premissas:

  • Compreender o corpo-humano – Anatomia e Fisiologia Articular, Muscular e Neural.
  • Compreender a mecânica do exercício – Leis da física que pautam qualquer forma de exercício, do pilates, ao yoga, ao crossfit, ao alongamento…
  • Articular a mecânica do exercício com o conhecimento do corpo-humano, portanto, compreender a relação e influência da física e o sistema neuro-músculo-esquelético.
  • A humildade de assumir que, por detrás da motricidade está um complexo sistema biológico, extremamente sensível às condições contextuais, onde qualquer alteração, provoca uma reorganização das partes que o constituem, tornando altamente imprevisível um resultado pré-determinado.

Deste modo, novos olhos e perspetiva nascerão para o profissional do exercício e da reabilitação, que deverá procurar uma construção, prescrição, monitorização e reconfiguração da construção idealizada tão específica e aberta às possibilidades de resposta quanto a complexidade do sistema motor o permita. Assumir que, a propriocetividade é um sentido, tal como o paladar, audição, visão e olfato, será abrir portas para a sua contextualização fisiológica e consequentemente para um melhor entendimento da forma de induzir melhorias na motricidade e fisiologia dos clientes, de modo que, o “exercício” (forças aplicadas no corpo com uma determinada configuração física e duração), possa ser um veículo de “Exercício” (Estimulação mecano-fisiológica com propósito adaptativo).

Como nota final, gostaria de ressalvar que, hoje mais do que nunca, é imperativo que a comunidade profissional consiga, de forma reflexiva e crítica, afastar-se das guias de prescrição assentes em premissas desfasadas do entendimento do corpo e das leis que regem a motricidade. As determinantes mecano-biológicas que determinam e influenciam as adaptações ao treino são mais complexas do que se imagina (tema de um próximo texto), portanto, simplificar a atuação profissional a um método(s) é afastarmos o exercício físico da sua verdadeira essência e propósito.
Necessitamos de uma metamorfose conceptual e metodológica, que una (pensamento) sem desintegrar (as relações), mas que agregue (os processos) sem unificar (sem dogmatizar), portanto, que crie “complexidade” (tema de um próximo texto), interdependência, abertura, reflexão, em última análise, excelência.

Nuno Pinho

Coordenador Pedagógico EXS; Lic. Desporto e Educação Física FDUP; Master Mecânica do Exercício ERA®