Treino da Força no Desporto por Nuno Pinho

Treino da Força no Desporto por Nuno Pinho

Analogia com a prática de Corrida.

 

Correr, do ponto de vista biomecânico, aporta variáveis muitas vezes esquecidas pelas marcas, praticantes e inclusivamente alguns profissionais do sector. Enquanto atividade motora, a corrida implica não só a gestão dessa motricidade, por parte do sistema nervoso central, de modo a mover o esqueleto no espaço mas também, e aquela que é mais treinada, a capacidade dos sistemas energéticos em darem suporte às diferentes demandas requeridas para consubstanciar essa relação mecânica. No entanto, o esquecimento da componente de controlo da motricidade, determinada pela relação Sistema Nervoso Central e Sistema Músculo-Esquelético pode provocar a médio-longo prazo, e em alguns casos no curto prazo uma perda da integridade músculo-esquelética, ou seja, lesão.

Gostaria de elucidar o leitor sobre a importância do treino de força muscular enquanto elemento que deveria ser estruturante para qualquer praticante de corrida. O treino do corredor carece de uma análise quantitativa, nomeadamente ritmos, tempos, objetivos de distância. No entanto, a construção de um processo rigoroso de preparação necessita de uma análise qualitativa também, nomeadamente o que reporta ao treino da técnica de corrida e da capacidade do sistema neuro-músculo-articular em tolerar as forças envolvidas no ato de correr (em treino e em competição). Em primeira instância, correr é física a acontecer, na medida em que, existe a necessidade de negociar forças para vencer a inércia corporal, acelerando os segmentos e tolerar os impactos induzidos em cada passada (1ª, 2ª e 3ª leis de Newton). Assim, correr é um ato do corpo na sua relação com a física, portanto, treinar para correr, implica treinar o corpo para que a gestão desta relação possa ser otimizada.

 

Nesse sentido, pensará o leitor que é difícil enquadrar o treino de força num processo de preparação, as razões para tal dúvida são geralmente as seguintes:

  • Treinar força encurta os músculos, portanto reduz a performance;
  • Treinar força retira tempo à prática específica de corrida, portanto, não é determinante;
  • Treinar força torna o praticante mais lento;
  • Treinar força induz hipertrofia muscular, portanto, antagónico ao morfótipo do corredor;

Todas estas afirmações são normalmente resultado de crenças e ideias generalizadas sobre a prescrição e monitorização do treino inadequadas e afastadas do rigor científico que merece uma prática motora que pode ser lesiva para o corpo.

 

Não é objetivo deste artigo explicar todos os processos adaptativos decorrentes do treino de força, mas antes, elucidar o leitor-praticante do imperativo que é treinar os tecidos musculares para induzir melhorias na performance aquando da prática de corrida. Estimular os tecidos musculares dentro de parâmetros que se configurem como adequados à fisiologia do corpo (muscular e articular e neural) possibilitará que os processos de controlo do movimento, aquando da realização da habilidade motora, possam estar no seu máximo potencial. Não raras vezes, praticantes de corrida não apresentam condições para tolerar as imposições mecânicas e fisiológicas que a prática suscita. Se um tecido muscular não apresenta condições de contratilidade otimizadas, que se traduz em capacidade de gerar tensão ao longo de determinadas posições articulares será de esperar uma menor capacidade do sistema muscular em controlar as relações articulares sobre um determinado eixo. Se reportarmos à articulação do joelho, existem músculos que possuem capacidade mecânica para controlar o eixo Lateral-Medial: Bicep Femoris porções curta e longa, Semitendinosus Semimembranosus, Gracilis, Sartorius, Popliteus, Gastrocnémius, Rectus Femoris, Vastus Lateral, Vastus Intermedio, Vastus Medial, Tensor Fascia Lata, Plantaris. A criação de motricidade acontece no jogo articular onde o Sistema Nervoso Central usa os seus instrumentos (músculos) para garantir que as imposições físicas e volitivas possam acontecer com o mínimo dano à integridade articular, assim, é determinante que a preparação de qualquer atividade, da corrida ao estar sentado na secretária estimule os tecidos musculares a:

  1. Otimizar a sua contratilidade, diga-se, que o indivíduo consiga controlar os diversos eixos articulares recorrendo ao recrutamento dos tecidos diretamente implicados no desafio (exercício) mecânico construído (pelo treinador) mediante uma execução intencional qualitativa (In MTF PRO).
  2. Otimizar a criação e manutenção de tensão muscular que induza melhorias nos sistemas energéticos e de suporte, ou seja, se um praticante é capaz de manter sobre controlo uma determinada carga num determinado contexto de estimulação (construído pelo treinador) num dado intervalo temporal as melhorias energéticas e metabólicas serão uma consequência deste processo – TOLERÂNCIA

 

Estes propósitos para serem consumados requerem por sua vez:

  1. Treinadores que compreendam a Anatomia e Fisiologia, articular, muscular e Neural (Reportada ao controlo do movimento).
  2. Treinadores que compreendam a mecânica do exercício, de modo a que os contextos de estimulação possam ser construídos com a devida adequação às fisiologias do ponto 1.
  3. Treinadores que compreendam como a estimulação dos tecidos musculares podem induzir melhorias subsequentes nos sistemas de suporte necessários para a criação de tensão muscular.

 

Retomando aos quatro pontos citados sobre as dúvidas quanto ao treino de força em praticantes de corrida, e agora que já se estabeleceu algum racional que sustente a sua importância, cabe elucidar o leitor de que:

  • A estimulação muscular permitirá que as posições articulares disponíveis sobre um dado eixo articular (por exemplo, Eixo: Lateral Medial; Movimentos: Flexão e Extensão Joelho; Posições Disponíveis: Flexão 100º, Extensão 35º) possam ser estimuladas de modo a que todos os músculos que possuem mecânica para controlar este eixo possam ser estimulados sobre controlo voluntário do praticante
  • A estimulação muscular permitirá que de forma gradativa se possa ir aumentando as exigências sobre os tecidos de modo a induzir alterações metabólicas e estruturais locais que extrapolem para melhorias sistémicas, nomeadamente sobre os sistemas de suporte (cardiovascular).
  • A estimulação muscular não induz “encurtamento” estrutural dos tecidos, que depois necessitam de ser libertados ou alongados. Na realidade, a neurofisiologia diz-nos que a mobilidade é FORÇA DEPENDENTE, na medida em que, os mecanismos regulatórios da mobilidade articular dependem em grande medida da QUALIDADE da INFORMAÇÃO que chega e que parte do Sistema Nervoso Central. Informação essa que pode ser estimulada com recurso à aplicação estratégica de “forças” no corpo-humano, pois existem sensores articulares e musculares que um treinador pode estimular com recurso à criação de exercícios com uma dada configuração biomecânica.
  • A estimulação muscular não torna um praticante mais lento. A velocidade depende de vários fatores em sinergia, desde genéticos, mecânicos e de habilidade específica. O treino de força ao melhorar as capacidades dos tecidos em gerar tensão pode ser coadjuvante da sua melhoria, resta saber se o praticante possui condições para ser rápido (constituição histológica muscular, proporções segmentares, aprendizagem motora da habilidade que é correr…)
  • A hipertrofia muscular é comum a qualquer tecido saudável, na realidade, muitos praticantes com medo deste mecanismo fisiológico intrínseco à evolução entram em processos catabólicos superiores aos anabólicos. A estimulação muscular é um dos maiores coadjuvantes à hipertrofia muscular pela estimulação vias de síntese proteica.

 

O treino de força é na realidade um potente coadjuvante num processo de treino de qualquer modalidade, pois o objetivo é o de garantir que os tecidos musculares possam ter condições para tolerar a prática técnica e específica da mesma com o mínimo prejuízo da integridade articular e muscular e com a máxima otimização dos processos bioquímicos e hormonais inerentes à criação de tensão muscular. Não esqueça o leitor que o ato de correr é dependente da tensão muscular, portanto, quanto melhor tensão conseguir desenvolver melhor poderá praticar a técnica de corrida e todas as outras variáveis de quantidade que supracitamos. A perspetiva que se pretendeu transmitir ao leitor é que existe um mundo qualitativo na configuração da preparação do praticante que em muito supera as crenças generalizadas acerca dos benefícios ou malefícios de qualquer tipo de estimulo que se aplique ao corpo.

Nuno Pinho

Coordenador Pedagógico EXS; Lic. Desporto e Educação Física FDUP; Master Mecânica do Exercício ERA®