Sobre Erro e Crescimento por Rubens Meggetto

Sobre Erro e Crescimento por Rubens Meggetto

É necessário estarmos confortáveis com o facto que muitas vezes em nossas vidas estaremos errados.  Mesmo com embasamento e sustento para nosso posicionamento sobre determinado tema ou objeto, podemos estar equivocados, parcial ou completamente. Algumas vezes o problema está na fonte que sustenta nosso argumento: ela pode ser fraca, limitada, equivocada nas premissas, enviesada, entre outros problemas que a fragiliza enquanto verdade. Outras vezes o problema está em nosso entendimento e compreensão destas fontes: se compreendemos os contextos a que essa fonte se insere, se compreendemos profundamente ou superficialmente a fonte, se usamos a fonte apenas por que ela corrobora nosso ponto de vista já existente sobre o tema ou objeto do saber.

Naturalmente podemos também estar corretos quando nossa fonte é sólida e nossa apropriação desta é adequada. Nessa circunstância, porém, reside um potencial problema que é acreditar que o nosso argumento embasado e coerente é suficiente para explicar ou compreender integralmente determinado objeto. Considerar que ao conhecermos um aspecto verdadeiro sobre um objeto, o conhecemos por inteiro, é um erro comum. Ao deixarmos de considerar a potencial amplitude das verdades, faces e perspectivas contidas em um objeto e as complexas relações que este pode estabelecer com outros, caímos em erro, pois o simplificamos. Esse processo redutor, cria-nos a frágil ilusão de propriedade e autoridade, muito satisfatória ao intelecto, porém frágil ao escrutínio da crítica. A crítica por sua vez cria inversamente dessabor ao sermos expostos aos nossos equívocos. Contudo, precisamos fazer as pazes com o errar e a incompletude. Não há nenhum problema em estar equivocado, principalmente porque, ser capaz de reconhecer os equívocos, seguir em frente em busca de correção, são passos legítimos para o crescimento intelectual.

Estarmos de bem com a incerteza e o erro, abre portas a curiosidade, ao interesse, a investigação. Quando se rompe com o apego a estar certo, cria-se espaço para o aprendizado. Voltamo-nos ao objeto do saber humildemente como aluno, disposto aprender, a questionar. Uma importante questão que podemos continuamente propormo-nos é: “O que eu reconheço, que desconheço sobre determinado saber? O que eu sei que preciso estudar mais, para me aprimorar sobre determinado saber?”. Na mesma direção “O que eu desconheço que desconheço sobre determinado saber? Quais são as perspectivas, vertentes, objetos, dentro de determinado saber, que eu sequer estou ciente que existem e são relevantes?” No que toca o universo profissional, penso que esse pode ser um exercício saudável, a nível individual e coletivo.

É comum haver discordâncias, divergências, entre segmentos dentro de uma profissão. Muitas delas ocorrem quando pela redução de um objeto, não somos capazes de contemplar sua complexidade inerente. Um exemplo de divergência na área do exercício físico: Sabe-se que o exercício pode ocasionar imensas mudanças positivas à saúde de um indivíduo. Hipertrofia muscular, força e mobilidade, são exemplos dessas possíveis positivas mudanças na saúde. Há, porém, divergências entre diferentes grupos/comunidades, sobre quais práticas são as melhores para estimular essas mudanças. Nestes termos a premissa desta discussão é falha, pois a delimitação dicotômica (melhor x pior, bom x ruim, certo x errado) ajuda a redução o objeto. Diferente seria se antes, cada grupo/comunidade questionasse quanto e como as suas práticas podem efetivamente estimular essas mudanças na saúde. Para isso, as perguntas supracitadas são pertinentes: O que eu sei sobre Hipertrofia muscular, força e mobilidade? O que é cada uma? O que preciso saber mais sobre estas? O que é requisito para que se expressem? O que impede que elas se expressem? Quais são todas as possíveis maneiras de influenciar? Quais são as diferenças? Quais são as semelhanças? Qual é o mecanismo que cria a resposta a determinado estímulo? Quanto é necessário deste estímulo afim de criar uma resposta? Qual é o mínimo necessário? Existe um máximo? A resposta a determinado estímulo é diferente em diferentes indivíduos? Existem outros fatores fora o exercício que podem influenciar essas adaptações? Entre tantas outras perguntas que pode ampliar aquilo que sabemos e evidenciar muito daquilo que desconhecemos.

É fundamental o exercício da crítica, contudo, criticidade não é o mero exercício da discordância, mas sim a aplicação da lógica, da evidência e da experiência para analisar as balizas que definem algo como verdade. Não é qualifica-lo como errado ou certo, mas compreender qual a extensão, amplitude de verdade/conformidade contida neste. Sempre que há uma interrogação (como as tantas supracitadas), podemos analisar os limites e a conformidade de nossos saberes. Se afirmo que minhas práticas são as melhores para produzir mobilidade, quantas das perguntas mencionadas sei responder? Se digo que determinada modalidade não é capaz de produzir hipertrofia, qual é a amplitude e a verdade dos meus saberes sobre esse assunto e a modalidade criticada? A crítica, antes de aplicarmos ao outro, cabe melhor a nós.

Ao subscrevermos a um grupo/comunidade, suas práticas e fundamentos, é fácil confundir conhecimento com identidade. “Aquilo que sei e domino, é parte daquilo que sou”. Especializar-se e saber mais sobre algo, é útil e também satisfatório, mas esta gratificação não pode ser convite para a estagnação. É necessário o empenho do questionamento daquilo que sabemos e fazemos em nossa prática profissional, não pelo gozo de confirmar as crenças e intitular-se certo, mas pelo compromisso profissional de continuamente otimizar a prestação de serviço.

Essas reflexões não servem de argumentos para o posicionamento de que ‘tudo e todos podem estar certos e é apenas uma questão de ponto de vista ou perspectiva’. Pelo contrário. A ciência, a lógica e a experiência dentro de uma área são alicerces para as práticas que façam sentido e sejam efetivas. Por isso se torna enfático o exercício da revisão e da autocrítica sobre os saberes e práticas. Através do sincero exercício de auto verificação, notamos que muitas vezes não compreendemos tão profundamente um objeto como acreditávamos. E isso é bom! Reconhecer nossas brechas e buscar conteúdo para preenche-las é um grande passo em busca do crescimento pessoal e profissional. Outro passo congruente com este, é qualificar as fontes em que buscamos nossos saberes e práticas, mas isso é assunto para outras reflexões.

Rubens Meggetto

COORDENADOR REGIONAL EXS - NORTE; Licenciado em Educação Física, UFP; Mestre Exercício Físico e Saúde, ULP.