Instrução Inicial e Demonstração no Treino de Força por João Ferreira

Instrução Inicial e Demonstração no Treino de Força por João Ferreira

1 – Introdução

Antes de iniciar a reflexão que se seguirá, creio ser importante, face ao contexto social que vivemos, deixar presente que não deveremos perder os princípios norteadores que balizam, potenciam e estão na base de uma atuação profissional e ética. Exige-se capacidade de adaptação – característica inerente a qualquer ser humano – a todos nós. É certo! Contudo, é essencial que haja sensatez, ponderação e deontologia nas decisões que tomamos, com vista a uma melhor adaptação.

Começo, então, por analisar a palavra profissão. Com origem no latim professiõne-, é um nome feminino referindo-se ao ato ou efeito de professar, declaração pública e exercício habitual de uma atividade económica como meio de vida. Por seu turno, “professar” e “declaração” são duas palavras que remetem para o ato de comunicar. Na profissão de treinador particular, realmente, comunica-se exercício permitindo que este exerça a sua atividade através de ferramentas do seu reportório técnico. De facto, comunicar de um modo eficaz e eficiente é essencial no treino pois “entre aquilo que o professor ou o treinador pretendem dizer e aquilo que efetivamente dizem pode haver uma diferença, que aquilo que o praticante ouve não é, necessariamente, aquilo que compreende, e, aquilo que compreende não é, também, muitas vezes, retido ou, finalmente, executado.” (Rosado & Mesquita, 2009, p.72). De modo a fazer chegar a informação ao praticante adequadamente, o treinador servir-se-á de múltiplas ferramentas, sendo uma delas a instrução.

“o treinador pode influenciar, de forma decisiva, o nível das aprendizagens dos seus atletas se estruturar o processo de instrução (preparação da matéria de ensino, ou seja, dos conteúdos de treino) de forma adequada. (Mesquita, 2005, p.40).”

Atentando no contributo da Pedagogia do Desporto, “o treinador pode influenciar, de forma decisiva, o nível das aprendizagens dos seus atletas se estruturar o processo de instrução (preparação da matéria de ensino, ou seja, dos conteúdos de treino) de forma adequada.” (Mesquita, 2005, p.40). A Aprendizagem Motora refere que, na aprendizagem de novas habilidades motoras, a informação acerca do modo como se executam as habilidades a realizar é emitida através de instruções verbais e demonstrações que veiculem os objetivos e a própria mecânica da tarefa, estando dependente das necessidades e estádio de aprendizagem do praticante (Edwards, 2010). O mesmo autor menciona que a informação referente ao resultado durante ou após a execução é denominada de feedback.

Aplicando estes conceitos ao Treino de Força, penso que poderá referir-se que a instrução assenta nos comportamentos do treinador para transmitir informação diretamente relacionada com os objetivos dos exercícios e modo de os executar. A construção destes (exercícios) deriva da intenção de debelar necessidades neuromusculoarticulares identificadas pelo treinador, ou seja, tem como base dotar de força determinadas estruturas daquele sistema. Por conseguinte, a instrução, ademais de ser relativa aos objetivos dos exercícios está relacionada com a resposta às necessidades acima referidas. É através da instrução que o treinador consegue comunicar exercício ao seu cliente. Isto é, consegue utilizar o seu corpo de conhecimentos e competência no sentido de intervir no corpo da pessoa humana para que ocorra manutenção e/ou melhoria da sua condição física.

 

2 – Fases na Instrução do Treino de Força

“Podem ser identificadas 3 grandes fases na instrução: A instrução verbal inicial, a demonstração e o feedback.”

Podem ser identificadas 3 grandes fases na instrução: A instrução verbal inicial, a demonstração e o feedback. Debruçar-me-ei, aqui, sobre as duas primeiras. A instrução verbal inicial refere-se à informação a ser transmitida pelo treinador à pessoa para que esta entenda o que deve fazer, sendo necessário que pertença ao seu domínio de entendimento (McMorris, 2004). Contém os aspetos críticos gerais e específicos da habilidade a ser realizada, permitindo aceder aos requisitos para a uma correta execução. Deste modo, possibilita a aprendizagem e/ou potenciação da performance na mesma habilidade (Edwards, 2010). Com efeito, é imperial que seja efetuada com o máximo de proficiência. Para isso, existem alguns aspetos a ter em conta no momento da sua realização.

O primeiro diz respeito à quantidade de informação emitida. Uma vez que a informação que é recebida para posterior processamento é armazenada na memória de curto prazo, pouca informação é mantida e somente durante um curto intervalo de tempo (McMorris, 2004). Por isso, a informação deve-se basear em um ou dois tópicos básicos. Quando o praticante é iniciante, estes devem ser considerados os elementares para a execução do exercício, envolvidos na coordenação grosseira do movimento. Quando o praticante é intermédio ou avançado, poderá esta informação inicial ser mais detalhada e elaborada, além de dever ser focada em detalhes e, assim, promover a coordenação fina do movimento (Edwards, 2010). Por exemplo, na realização do exercício de extensão do joelho (vulgo leg extension) com praticantes iniciantes, a instrução para estender o joelho poderá ser suficiente. Ou, no chest press, pedir para empurrar as pegas para a frente. Quando o praticante é de nível intermédio ou avançado, a instrução para estender o joelho lentamente ou “grau por grau” adequar-se-á ao seu nível, ou, no caso do bench press, empurrar as pegas para a frente, da forma mais lenta possível, procurando juntar os cotovelos. A especificidade destes exemplos dependerá, obviamente, dos objetivos pretendidos.

O segundo item refere-se à precisão da informação. É importante que esta seja precisa para não criar confusão relativamente ao que é pretendido. Lembrando que o que é claro para o treinador, pode não o ser para o praticante. Com praticantes iniciantes, deve ser bem dosada e aludir, se possível, a habilidades ou movimentos já aprendidos (Edwards, 2010), para facilitar a compreensão da dinâmica global da nova aprendizagem. Por exemplo, na extensão do ombro (lat machine, configurada para tal), poder-se-á solicitar ao aluno que puxe a barra até meio (clareza e precisão) quando se pretende estimular os extensores do ombro dentro daquela amplitude. Com praticantes intermédios ou avançados, a instrução poderá ser para puxar a barra até aos 90º, trazendo os cotovelos para baixo e para trás (precisão e mais itens). Por outro lado, no agachamento com barra livre, talvez seja útil pedir ao praticante (iniciante) para se sentar e levantar (movimento já aprendido). Em caso de praticantes intermédios/avançados poder-se-á sugerir para agacharem até 100º.

O terceiro é relativo ao foco de atenção. Na instrução verbal inicial, a informação pode ser transmitida para induzir um foco de atenção externo (atenção dirigida para o resultado da resposta motora dentro do ambiente) ou um de atenção interno (atenção dirigida para os padrões de movimento usados para gerar uma resposta motora) (Edwards, 2010). De acordo com Kershner et al. (2019) e Marchant et al. (2009), o foco de atenção interno refere-se à informação dirigida para partes do corpo, ângulos articulares e à acção em si, enquanto que o foco de atenção externo é relativo ao resultado desejado, a um objeto e ao ambiente. No estudo de Kershner et al. (2019), pretendeu-se comparar os efeitos do foco de atenção em variáveis do salto com contramovimento. Para isso, os participantes receberam informação dirigida para dois focos de atenção: um foco externo (“nesta condição, concentra-te em empurrar para longe do chão, o mais explosivamente possível”) e um foco interno (“nesta condição, concentra-te em estender os joelhos e anca, o mais explosivamente possível.”). Os atletas, quando instruídos com informação de foco externo, apresentaram maior altura de salto, velocidade de pico e velocidade média concêntrica, do que quando instruídos com informação de foco interno. Assim, a instrução verbal voltada para o foco externo pareceu induzir um aumento da performance pelo uso mais eficiente dos padrões motores responsáveis pelos movimentos. Por seu turno, quando a instrução verbal é centrada no foco interno, o individuo tenta introduzir a informação no sistema motor, provocando alteração do padrão motor o que se traduz em ruído para aquele sistema, ocorrendo um decréscimo da performance (Kershner et al. , 2019)

Os segundos autores pretenderam estudar a influência do foco de atenção na produção de força e atividade muscular durante a flexão do cotovelo isocinética. A força foi medida através de um dinamómetro isocinético e a atividade muscular através de eletromiografia. As instruções dadas para imprimir um foco de atenção interna foram: “foca-te no movimento do teu braço e dos músculos durante o levantamento”. As instruções usadas para induzir um foco de atenção externa foram: “foca-te no movimento da barra da manivela durante o levantamento”. Também, foi pedido aos participantes para dirigirem o olhar para a frente durante os ensaios, em vez de o voltarem para a barra e para o braço. Observou-se que os sujeitos quando receberam informação voltada para o foco externo, existiu uma maior produção de força e menor atividade muscular. Quando a informação foi voltada para o foco interno, a atividade muscular registada foi significativamente maior (Marchant et al. ,2009).

Nadzalan et al. (2016) compararam os efeitos da instrução verbal voltada para o foco externo e para o foco interno de atenção, nos exercícios supino plano e peso morto com 85% de 1 RM em população treinada em força, recreativamente. Repararam que os participantes executaram mais repetições durante o uso de instrução verbal de foco externo, devido a uma maior eficiência energética potenciada por um recrutamento muscular mais efetivo e por uma melhor coordenação muscular. Contudo, o uso de uma instrução verbal voltada para o foco interno em intensidades submáximas parece potenciar a atividade eletromiográfica dos músculos requeridos para a realização dos exercícios, tal como nos dizem os estudos de Fujita et al. (2019) e de Snyder e Leeche (2009).

Deste modo, direcionar a instrução verbal com informação dirigida para o foco externo ou interno poderá ser uma boa estratégia para manter o exercício congruente com objetivo específico para o qual foi construído. Aqui, importa salientar, uma vez mais, que este (objetivo) decorre da necessidade de estimular determinada estrutura neuromusculoarticular e que esta, por sua vez, subjaz aos objetivos gerais do processo de treino. Por conseguinte, a instrução verbal está, indiretamente, relacionada com estes. A título de exemplo, para um halterofilista que pretenda melhorar a produção de força dos seus quadricípites, poderá ser interessante estimulá-los na leg extension, com foco de atenção externo, ou, executando agachamentos com barra livre, com o mesmo foco. Para isso, o seu treinador poderá pedir-lhe para “levantar o rolo da máquina” (leg extension) ou para “empurrar o chão para longe” (agachamento). Outro exemplo será o caso de um nadador que tenha sofrido uma lesão num dos seus ombros e que esteja em processo de reabilitação. Para melhorar a atividade muscular de alguns músculos daquela articulação, o seu treinador pode colocá-lo a realizar abduções do ombro com foco interno para estimular alguns músculos, pedindo-lhe que abduza ou afaste o braço. Por último, temos ainda o exemplo de um fisioculturista cujo objetivo seja aumentar o volume do seu bicípite braquial. Para tal, executar flexões do cotovelo com halteres, pedindo-lhe que flita o cotovelo aproximando as mãos dos ombros (foco interno), poderá ser uma boa estratégia.

 

3 – Demonstração no Treino de Força

Quanto à fase da demonstração, atentando no contributo da Aprendizagem Motora, a execução daquela parece ser importante na abordagem inicial a novos exercícios (Edwards, 2010) e em pessoas que estejam a iniciar, pela primeira vez, o processo de treino. Este facto, segundo Edwards (2010) pode ser explicado pela existência no cérebro de neurónios espelhos, visto que, este sistema, localizado na zona ventrolateral do córtex pré-motor, “está envolvido na codificação da intenção de realização de um movimento específico baseado na observação de ações comportamentais relevantes de outros” (Purves et al., 2018, p.396).

Na demonstração, existem alguns aspetos que a influenciam, devendo ser tidos em conta para o efeito. Um deles é o nível de habilidade que quem demonstra deve ter no movimento a ser executado pelo praticante, ou seja, a proficiência do modelo escolhido a executar a ação pretendida. Edwards (2010) refere que o uso de modelos aprendizes pode ser tão eficaz – em alguns casos, mais – como o uso de modelos especialistas, na demonstração de habilidades. Ora, no treino particular, o uso de um outro modelo que não o treinador para a demonstração, revela-se uma situação pouco prática e descontextualizada. Como tal, talvez possa ser útil, o treinador adaptar o modo como executa a demonstração do movimento ao nível de habilidade do praticante, em casos de pessoas de nível iniciante. No caso de pessoas de nível intermédio ou avançado, poderá ser interessante que o treinador demonstre o movimento com toda a sua expertise.

Outro aspeto relevante é a similitude entre o modelo e os praticantes. O mesmo autor escreve que quando estes partilham entre si a mesma idade, sexo, status, entre outros, os praticantes tendem a aprender e a realizar melhor a habilidade demonstrada (Edwards, 2010). No contexto do treino particular, este facto é pouco útil. Contudo, permite refletir acerca da real necessidade de usar a demonstração como veículo de transmissão de informação. Assim, penso ser fulcral que o treinador opte, sempre que possível, pelo uso de instruções verbais, que pode ou não ser conjugada com demonstração, dependendo da complexidade e novidade das solicitações, bem como dos objetivos pretendidos.

 

4 – Conclusão

É exigido, assim, ao treinador que coloque toda a sua competência profissional (pedagógica, reflexiva) no sentido de tornar cada exercício apropriado ao praticante em termos fisiológicos, biomecânicos e instrucionais.

Com efeito, é essencial refletir acerca do que pode, ou não, ser importante no momento de explicar os exercícios ao praticante. Os objetivos dos exercícios decorrem da necessidade de colmatar necessidades neuromusculoarticulares e, por sua vez, estas, subjazem aos objetivos gerais do processo de treino de uma certa pessoa humana. Deste modo, torna-se fulcral, no preciso momento de instrução, utilizar palavras que transportem os objetivos dos exercícios, respeitando a fase de progressão dentro de cada espectro do processo de treino e adaptadas ao nível de compreensão e habilidade do praticante. É exigido, assim, ao treinador que coloque toda a sua competência profissional (pedagógica, reflexiva) no sentido de tornar cada exercício apropriado ao praticante em termos fisiológicos, biomecânicos e instrucionais.

Não é minha intenção providenciar receitas para uma instrução mais eficaz e eficiente, mas, pensar em determinadas situações e momentos do treino onde o treinador poderá ver a declaração do seu corpo de conhecimentos e competências potenciada, tornando-se, assim, melhor profissional.

 

5 – Bibilografia

Edwards, W. (2010). Verbal Instructions. In Edwards, W. (Ed.), Motor Learning and Control: from theory to practice (pp. 362-401). Wadsworth: Cengage Learning.
Fujita, R., De Marchi, P., Silva, N., & Gomes, M. (2019). Verbal instruction does not change myoelectric activity during seated row exercise in trained and untrained men. Motriz, Revista de Educação Física, 25, 4. Consult. 10 Abr 2020, disponível na base de dados ResearchGate.
Kershner, A., Fry, A. & Cabarkapa, D. (2019). Effects of Internal vs External Focus of Attention instructions on Countermovement Jump Variables in NCAA Division I Student – Athletes. Journal of Strength and Conditioning Research, 33(6), 1467-1473. Consult. 19 Out 2019, disponível na base de dados PubMed.
Marchant, D., Greig, M. & Scott, C. (2009). Attentional Focusing Instructions Influence Force Production And Muscular Activity During Isokinetic Elbow Flexions. Journal of Strength and Conditioning Research, 23(8), 2358-2366. Consult. 17 Abr 2020, disponível na base de dados PubMed.
McMorris, T. (2004). Learning. In McMorris, T. (Ed.), Acquisition and Performance of Sport Skills (pp. 169-173). Chichester: John Wiley & Sons, Ltd.
McMorris, T. (2004). Memory. In McMorris, T. (Ed.), Acquisition and Performance of Sport Skills (pp. 118-124). Chichester: John Wiley & Sons, Ltd.
Mesquita, I. (2005). A organização do processo de instrução. In Mesquita, I. (Ed.), Pedagogia do Treino: A formação em jogos desportivos colectivos (pp. 40-43). Lisboa: Livros Horizonte.
Nadzalan, A., Lee, J., Mohamad, N. (2016). The Effects of Focus on Strength Training Performances. International Journal of Humanities and Management Sciences, 3, 6. Consult. 10 Abr 2020, disponível na base de dados ResearchGate.
Purves, D., Augustine, G., Fitzpatrick, D., Hall, W., La Mantia, A., Mooney, R., Platt, M. & White, L. (2018). Upper Motor Neuron Control of the Brainstem and Spinal Cord. In Purves, D., Augustine, G., Fitzpatrick, D., Hall, W., La Mantia, A., Mooney, R., Platt, M. & White, L. (Ed.), Neuroscience (pp. 382-406). Sunderland, Massachusetts: Oxford University Press.
Rosado, A., & Mesquita, I. (2009). Melhorar a aprendizagem melhorando a instrução. In Rosado, A., & Mesquita, A. (Ed.), Pedagogia do Desporto (pp. 69-130). Lisboa: FMH.
Snyder, B. & Fry, W. (2012). Effects of Verbal Instruction on Muscle Activity During The Bench Press Exercise. Journal of Strength and Conditioning Research, 26(9), 2394-2400. Consult. 19 Out 2019, disponível na base de dados PubMed.

João Ferreira

Mestre em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário; Certificado Personal Training pela NSCA; Certificado Master em Treino de Força – EXS.